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Entre os Dois Compadres, Gaspar e Miguel O Símbolo Fálico na Matriz de Ponta Delgada |
Miguel – Então caro Compadre, quantas freguesias é que há em Ponta Delgada?
Gaspar—Três: São Sebastião ou da Matriz, São Pedro e de São José. Perdão. Devo acrescentar mais uma a de Santa Clara.
Miguel – Para mim a igreja de São Pedro é a mais original. Não tem colunas. Tem só uma abóbada. De todos os lados se pode ver o serviço no altar principal. Muito confraternizante. Quando foi construída?
Gaspar – Foi inaugurada em 25 de Julho de 1645 como nova igreja, construída no lugar da primitiva ermida.
Miguel – E a de São José?
Gaspar -- Entre 1710-1714 quando se transladou para ela o Santíssimo Sacramento.
Miguel – Vamos então ver a Matriz
que deve ser a mãe e mais velha.
Gaspar – É sim, Senhor. Foi
construída entre 1533 a 1545. Tem a forma de cruz latina e o seu patrono é
São Sebastião, o Santo Mártir varado de setas, que influenciou muito a criação
de freguesias semelhantes na Baía, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
M – Vocemecê, sabe disto a potes.
Vamos entrar.
G – A Matriz por dentro tem um
aspecto grandioso. A talha dos altares é de facto muito rica e original.
Grandes mestres que fizeram esta obra magnífica e não têm os seus nomes
gravados em lado nenhum! Ingratidão. Fizeram-no pelo amor a Deus!...
M – Compadre, a arquitectura no
exterior também tem muito que se lhe diga. Vamos analisá-la.
G—A porta principal é de pedra
branca, calcária, que veio do continente português e foi feita em Estilo
Manuelino. Muito bem talhada. Perfeita. A porta do lado sul também é do mesmo
estilo, com calcário branco, mas a porta do lado norte, sendo semelhante, foi
construída com pedra basáltica local.
M – Tem categoria de igreja
grande porque possui quatro gárgulas do lado do sul e quatro do lado norte.
G-- Qual será a origem da
palavra gárgula?
M – Vem de garganta grande,
comprida. O nosso povo chama-lhe carranca, ou cara feia, às vezes tem a
aparência de máscara. As gárgulas servem para escoar as águas das chuvas dos
telhados das igrejas e das catedrais, para a água não escorrer pelas paredes
abaixo. As gárgulas da Catedral de Nossa Senhora de Paris e do Mosteiro da
Batalha são muito famosas. Já reparou que as gárgulas nesta Matriz assemelham-se
às bocas de canhões, semelhantes àqueles que os portugueses usaram nas praças
e fortalezas para defender o nosso Império dos piratas e dos invasores. Mas
existe aqui uma gárgula muito curiosa. Repare na que está localizada na parte
norte. Esta gárgula representa um símbolo fálico. Lá está bem visível, uma
figura imitante humana, com um pénis do comprimento dum pé, ladeado na base
por dois testículos do tamanho de tangerinas!
G—Com todos os diabos, Compadre,
nunca tinha notado estas poucas vergonhas na Matriz de Ponta Delgada!...
M –Infelizmente ainda há
muitíssima gente que critica os pedreiros das igrejas e catedrais por lavrarem
em gárgulas “pornografias grosseiras”, quando apresentam figuras com o
símbolo fálico. Esses críticos não sabem o significado místico e religioso do
símbolo fálico.
G – Eu confesso a minha
ignorância neste assunto fálico. Até estou com a pele arrepiada por falarmos
nestas coisas obscenas à beira da Matriz!...
M – Tranquilize-se que eu
explico. Ponha o fanatismo de parte e concentre-se nos factos históricos
verdadeiros! Lembre-se que antes de Jesus Cristo nascer e ser crucificado, o
símbolo de Deus para toda a humanidade não era a cruz, mas sim, o símbolo
fálico.
G – Mas então quem é que começou
com essa coisa esquisita do fálico?
M – A palavra fálico (ou pénis) é
uma palavra fenícia. A Fenícia era onde hoje existe o Líbano ao norte de
Israel. Os fenícios foram um povo muito importante na antiguidade. Foram eles
que inventaram as consoantes e os gregos criaram as vogais do nosso actual
vocabulário.
G – Não sabia essa informação tão
importante.
M-- Os antropologistas,
cientistas que estudam o desenvolvimento civilizado do homem, afirmam que
todos os povos primitivos escolheram como representante do seu Deus o símbolo
fálico -- ou seja o pénis e os testículos!
G – E porquê, qual foi a razão?
M – A razão empírica é muito
simples. Lembro outra vez que tudo isto se passou antes do uso do símbolo da
cruz! Todo o homem observou que a única parte do seu corpo que se modifica, que
se torna erecta é o seu pénis quando o homem se torna viril e potente! Esta
foi uma observação simples, mas muito importante. O homem passou a associar esta
mudança física, da erecção, como símbolo do poder, e não levou muito tempo
que o cérebro humano fosse mais além e passasse a considerar símbolo fálico
como símbolo máximo da força, da omnipotência e portanto passasse a ser
adoptado como símbolo de Deus.
G – Embora a sua explicação tenha
lógica, confesso que para mim é difícil comparar o símbolo fálico com o
símbolo da cruz!
M – Não fique nervoso. Já
reparou que as palavras Velho Testamento e Novo Testamento são ambas derivadas
de testículos, ou seja do símbolo fálico?!

A Estátua de
"David" por Miguel Angelo.
Academia da Cidade de Florença, na Itália
G – Esta conversa está cada vez a ficar pior!... Vou deixar de fazer mais perguntas.
M – Não seja fanático. Sejamos
pragmáticos e verdadeiros. Tranquilize-se. Não estão nenhumas beatas a
ouvir-nos! Deixe-me acrescentar. Quando uma pessoa vai ao tribunal servir de
testemunha, jurando sob sua honra, dizer só a verdade, fá-lo baseado na
honradez do significado fálico ou dos testículos, porque a palavra testemunha é
derivada de testículo! E ainda mais. Os testículos são as partes anatómicas
humanas que maior influência legal, religiosa e social têm exercido da História
da Humanidade através dos tempos. Todos nós sabemos que o último nome do pai é
que determina o nome da família. Universalmente o filho é preferido à filha
porque ele perpetua o nome da família. Na Judeia e na Grécia antiga a virilidade
do homem era sempre representada pelo pénis e pelos testículos que passaram a
ser o símbolo da valentia, do respeito, da honradez, chegando a sublimar-se
como Deus Omnipotente. Os antigos tinham muito mais respeito pelos órgãos
genitais masculinos, do que acontece hoje no mundo moderno. Observe a
quantidade de estátuas, belíssimas, de figuras humanas nuas que existem nas
praças públicas da Grécia e do Império Romano. O melhor exemplo é a estátua de
“David” de Miguel Angelo, em Florença.
G -- Ainda não compreendi bem,
como é que os antigos celebravam ou festejavam o seu Deus Fálico, como você
lhe chama.
M – Faziam procissões como agora
se faz com o Santo Cristo, com o Santo António, ou com a Nossa Senhora de
Fátima. Construíam um andor com um pénis e testículos muito grandes e depois
percorriam as ruas das aldeias, vilas e cidades e as pessoas faziam caravana
atrás do andor, como os católicos fazem hoje com os seus santos preferidos!
G – Oh, Compadre, mas tudo isso
é caricato, faz-me rir. Parece uma descrição dum carnaval de mau gosto!
M -- Chame-lhe o que quiser. Isto
são factos históricos verdadeiros, meu amigo.
G– Ainda não compreendi porque é
que estas “poucas vergonhas” fazem parte da escultura da Matriz de Ponta
Delgada.
M -- O Compadre devia fazer uma
visita à célebre e histórica cidade de Pompeia, no sul de Itália. Esta cidade
foi totalmente arrasada pelas cinzas do vulcão Vesúvio no ano 79 da nossa era.
Pompeia foi construída antes do aparecimento da Cruz como símbolo de Cristo.
Qual era o símbolo religioso que o povo de Pompeia usava? Era o símbolo fálico!
Por todo lado, fora e dentro das casas, nas mobílias, nos pratos, nas
pinturas, nas cozinhas, nas salas de jantar, nos quartos de dormir, nos templos,
à entrada dos estabelecimentos comerciais e até nos pavimentos das ruas haviam
símbolos fálicos! E porque não, pois se ele era o deus deles! Note que
Pompeia tinha tanta gente naquela altura como a cidade de Ponta Delgada agora.
Imagine como seria Ponta Delgada se existisse há mais de dois mil anos. Também
iria ter símbolos fálicos por todos os lados, não era só na Matriz! Porque o
povo açoriano é tão religioso, Ponta Delgada iria ter muitos milhares de
símbolos fálicos espalhados por todos os lados!
G -- Compadre, eu já não se sei
se devo rir ou chorar com as suas explicações bombásticas e teológicas...
M – Compadre, quero que note bem
que as primeiras igrejas católicas tinham dentro e algumas até fora nas
paredes, gravados em pedra dura, o símbolo fálico, com o pénis e os
testículos, como símbolo religioso! Esta é razão do símbolo fálico na Matriz
de Ponta Delgada, não é como você e infelizmente muita gente pensa, ser por
razões pornográficas. Já observou que todas as cidades têm símbolos fálicos.
Ainda hoje nós estamos circundados por símbolos fálicos. Os obeliscos são
símbolos fálicos. As torres das igrejas são símbolos fálicos. A Torre Eiffel em
Paris, o Empire State em Nova Iorque, etc. são símbolos fálicos. Tudo isto como
expressão de potência, de força religiosa, económica e até política.
G – Estou espasmado para a minha
vida!
M – Não lhe quero dar nenhuma
indigestão. Só quero terminar por lhe dizer que o símbolo fálico também tinha o
poder de afastar o mau olhado. Assim como nós hoje, para afastar o mau olhado,
fazemos um sinal da cruz, na antiguidade o povo fazia o sinal fálico. Sabe qual
era o sinal fálico? Era o manguito, para afastar o mau olhado, embora hoje
tenha um significado obsceno. Quando fazemos um sinal mostrando o nosso polegar
na posição vertical estamos a fazer um sinal fálico. E quando oferecemos a
um bebé um fio de ouro com uma figa, fazemo-lo para afastar o mau olhado dessa
criança. Fique sabendo, por muito estranho que pareça, que a figa tem também o
significado de símbolo fálico.
G—Proponho irmos a um café aqui
àvolta para tomarmos uma bebida e mudarmos de assunto.
M – Compadre, deixe estar o Símbolo Fálico na Matriz que está lá muito bem. Para a próxima vez temos que trazer uma teleobjectiva para lhe tirar uma boa fotografia e mostrarmos aos Compadres e Comadres da nossa Academia do Bacalhau da Nova Inglaterra para eles quando vierem a Ponta Delgada não deixar de vir cumprimentar o Símbolo Fálico da Matriz...