Entre os dois Compadres, Gaspar e Miguel
Por Manuel Luciano da Silva, MD


O Protocolo das Academias

 

Miguel – Compadre,  você notou aquela declaração do Presidente da Academia Mãe a dizer abertamente no XXXI Congresso que as Academias no Brasil não estão bem, estão moribundas!... Será por causa do calor ou quê?

Gaspar -- Realmente para mim foi uma grande surpresa, até porque o Brasil é o país no mundo que mais bacalhau come! Tem até restaurantes  magníficos que se especializam em pratos de bacalhau.

Miguel – Curioso que os países tropicais, como África do Sul, Brasil e Venezuela,  são aqueles que mais bacalhau comem, quando afinal  o bacalhau só se desenvolve, só se multiplica, nas águas frias do Atlântico Norte.

Gaspar – Então qual será a razão das Academias do Brasil  estarem a correr o  perigo de morrerem?

Miguel – A meu ver  a causa da doença das Academias no Brasil deve estar  no protocolo que estão a usar no Brasil. O protocolo deles  não deve ter nada de variado, de atractivo, de apetitoso e até de intelectual  e artístico. 

Miguel – Puxa, Compadre, mas isso é uma crítica severa. Como é que defende essas afirmações.

Gaspar – Todas as Academias que  têm um protocolo em que só  põem  ênfase nos comes e nos bebes, que se concentram nas  repetições dos  Gaviões de Penacho, sem a participação  das Comadres,  permitindo que os machos possam contar  anedotas porcas, só  têm um destino fatal:  morrer. Não há mulher nenhuma que goste dum homem que  beba demais,  sejamos francos!  As refeições das Academias não devem ter o aspecto de reuniões de tascas! Isto são verdades que têm que ser enfrentadas, para que haja dignidade nas reuniões das Academias  onde quer que funcionem! 

Miguel –Mas a Academia de New England está a funcionar muito bem. Cada vez tem mais membros.

Gaspar – Porque o  protocolo que criamos para a nossa Academia  tem solenidade, cultura, poesia e humorismo que atrai as pessoas. Deixe-me que lhe descreva a sequência do nosso protocolo.

     (1)   Primeiro, o presidente pede silêncio com o  badalo. Imediatamente  o presidente lê em português a  nossa Benção  antes de  principiar a refeição. O vice-presidente lê a  tradução em inglês, porque estamos na América e temos membros que só entendem inglês.  E todos guardam silêncio quando as benção  são lidas. Há solenidade nestes poucos segundos.

Aqui estão os conteúdos das duas mensagens:

Benção -- Em Português

Caros Compadres e  Comadres:

Antes de inciarmos a nossa Ceia peço-vos para nos concentremos numa pequena oração.

Em Português:

Ao Deus da preferência de cada um de nós, agradecemos o facto de estarmos aqui hoje reunidos para confraternizarmos na  No. ______ Ceia da Academia do Bacalhau da Nova Inglaterra.

Pedimos ao nosso Senhor para que com esta Ceia de Bacalhau  -- ou do Fiel Amigo – possámos desenvolver  cada vez mais entre nós laços de amizade, cooperação e confraternização.

Pedimos Saúde , Paz e Alegria para a humanidade e agradecemos  muito a Deus  alimento que vamos tomar.

Assim seja. Amen.

Blessing --In English.  Read by the vice-president 

     Before we start our supper we should have a short        invocation.

Ladies and Gentlemen:

To the God of the preference of each one of us, we are grateful for the fact that we are gathered here today to have our  No. _________ Supper of the Academy of the Codfish of New England.

We ask our Lord that with this supper of Codfish, or the so called  -- “Faithful Friend”--, we can develop among ourselves ties of friendship, cooperation and cofraternization.

We ask also, Health, Peace and Happiness for humanity, as we are very grateful to God for the food that we are about to receive.

Amen.  Good Appetite. 

     (2)  Segundo. O restaurante serve o vinho  tinto e dois bolinhos de bacalhau acada Compadre e Comadre e o Presidente lidera o primeiro Gavião de Penacho.

       (3) Terceiro. É  servido  a sopa à portuguesa, por exemplo  caldo verde.

        (4)  Quarto. Depois é  servido o prato principal: como  Bacalhau a Gomes Sá, ou Bacalhau a Zé do Pipo, etc.,  acompanhado de salada mista.

       (5) Quinto. Segue-se  sobremesa portuguesa. Depois da sobremesa,  o vice-presidente lidera mais um Gavião de Penacho.

        (6) Informações. Nesta altura o presidente  dá informações no que respeita ao bom funcionamento da nossa Academia, procurando  ser sempre  objectivo e pouco moroso.

       (7)  Rifa. Vários sócios tem trazido  ofertas, em média num total de dez, que com a ajuda de vários Compadres e  Comadres,  vendemos uma braçada de  bilhetes (comprimento do membro superior),  num total  de dez bilhetes,  ao custo de  cinco dólares cada braçada. Psicologicamente, esta forma  da rifa dá muito melhor resultado monetário do que se fizéssemos  um leilão, que duma maneira geral antagoniza a maioria das  pessoas.  O  período da  selecção  dos números premiados tem servido de grande  expectativa e entretenimento e a rifa  tem produzido resultados magníficos.

       (8) O Fiel Amigo. Como atracão cultural criamos  um segmento  no nosso protocolo que consta na apresentação daquilo que chamamos o nosso Fiel Amigo. Um dos nossos membros,  previamente convidado pelo presidente, faz a apresentação biográfica dum português, ou americano, homem ou mulher, vivo ou morto que tenha dignificado o nosso grupo étnico. O apresentador não pode exceder os cinco minutos. A sua apresentação pode  ser em português ou inglês. Terá que fornecer a todos presentes  uma  cópia  do seu discurso para as pessoas levarem para suas casas e  arquivarem ou mostrarem  aos filhos e aos netos.  Todos nós temos aprendido coisas muito interessantes e originais com o Fiel Amigo. Já foram apresentados como Fiel amigo: Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Pedro Álvares Cabral, Infante D. Henrique, Camões, Fernando Pessoa, Abade Correia da Serra, primeiro embaixador de Portugal na América,  Benjamim Cardoso, Judeu Português que chegou  a ser Juiz do Supremo Tribunal Americano, Emma Lazarus, judia portuguesa que escreveu o soneto  que está na base da Estátua da Liberdade em Nova Iorque, Joseph Raposo, fundador do programa de televisão Sesame Street, Santo António de Lisboa, etc., etc.

       (9) Poesia original. Em média nas nossas ceias temos tido quatro poetas que nos tem deliciando com as suas  belas poesias  originais. A poesia tem que ter rima. Os temas podem ser sobre  Portugal, América,  Bacalhau, ou então  as estacões do ano ou feriados ou festas religiosas.   Tem sido apresentadas  obras  maravilhosas que depois têm sido publicadas no nosso Boletim mensal.

      (10) Anedotas. A parte final tem constado de anedotas. As anedotas tanto podem ser em português, como em inglês. Tanto os Compadres como as Comadres têm participado activamente. Até à  data as anedotas têm sido comedidas. Com alguma pimenta, mas  só o suficiente...  mas este espaço produz sempre muitas gargalhas. E boa disposição.

      (11) Não queremos  nenhuma música como fundo musical, porque são  os Compadres e as Comadres a falarem uns com os outros  que fazem  a música humana.

       (12)  Não consentimos discursos políticos nem religiosos. Queremos, sim, que as nossas ceias sejam reuniões familiares à moda portuguesa.  E  por isso temos sido muito bem sucedidos com este protocolo.

Continuamos, como disse,  a prestar muita atenção às pessoas.  Todos tem igual valor. Não há lugares marcados e assim cada qual escolhe o seu grupo onde se sente mais ávontade durante a refeição. Temos  tido sempre mais de uma centena de convivas nas nossas ceias. Há Compadres e Comadres que nunca falham!

Miguel—Mas Compadre, voltando ao caso das Academias no Brasil.  O povo brasileiro é divertido, tem muita poesia, muita música alegre, muita arte e muitas figuras históricas para serem apresentadas como Fiel Amigo! Porque é que não usam um protocolo como a nossa Academia?

Gaspar – Claro que o podem fazer. Sabe  o que se passa?  A Academia Mãe  tem, por bem,  dado liberdade total a todas as Academias para escolherem  o protocolo que melhor entenderem. Mas esta orientação não tem saído bem e os resultados estão àvista, como vemos agora com  as Academias do  Brasil.  A Academia Mãe  tem que ser mais firme e sugerir que as Academias passem a adoptar um protocolo semelhante ao nosso, para que as refeições-reuniões das  nossas Academias tenham mais variedade cultural e histórica. O protocolo tem que constar de assuntos que as pessoas gostem. E mesmo assim cada assunto tem que ser bem comedido para não aborrecer  ou saturar as pessoas. O presidente tem que se aperceber quando é que se deve parar, para que fiquem com mais apetite para voltarem á  próxima ceia...

Miguel – Eu gostaria, Compadre,  que no nosso próximo colóquio revíssemos os objectivos das Academias.

Gaspar—Acho muito boa ideia, porque é um assunto muito importante.

Miguel – Combinamos encontro amanhã aqui neste mesmo café.

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