Entre os dois Compadres,
Gaspar e Miguel
Por Manuel Luciano da Silva, MD

O Significado do ‘Fiel Amigo’

 

 Miguel – Então Compadre, como vão essas forças hoje,  com este dia tão húmido?

Gaspar – Realmente a humidade não me faz bem. Parece que as minhas articulações ficam mais perras...

Miguel – Vamos andar para as desenferrujar... Você  ontem começou a explicar-me o significado do ‘Fiel Amigo’. Porque é que a nossa gente chama ao bacalhau o ‘Fiel Amigo’? 

Gaspar – Há várias explicações, mas  aquela  que mais me satisfaz  e que me parece  ser a mais verdadeira é  a que explica  que o nosso povo  podia depender sempre do bacalhau seco e salgado  para fazer uma refeição, quando não havia  outra comida para cozinhar, principalmente nas aldeias montanhosas de Portugal.  Assim o  bacalhau passou a ser  o ‘fiel Amigo’ das cozinheiras e dos membros da família. 

Miguel – Acho muito curioso a sua explicação e está condizer com o caracter português.   De facto antigamente  não havia  frigoríficos  para conservarmos  os alimentos.  Tinha-se que recorrer à salgação do  bacalhau e das  sardinhas, ou então ao mel ou ao azeite para as frutas.  

Gaspar--Um dos grandes problemas do ‘fiel amigo’ é que ainda hoje a  nossa gente não demolha o ‘fiel amigo’ como deve ser. 

Miguel – Então diga lá como se deve fazer.

Gaspar—A North American Salt Corporation, em Pawtucket, Rhode Island, E. U. A., a maior fábrica de secagem de bacalhau salgado na América do Norte,  recomenda que  o bacalhau  seco salgado deve ser demolhado em DEZ águas. Corta-se o bacalhau  às  postas e depois  coloca-se numa bacia com água da torneira,  tapa-se e coloca-se dentro do frigorífico. Muda-se a água três vezes por dia,  de manhã, ao meio dia e à noite,  num total de dez águas. Desta maneira o bacalhau fica com o seu sabor natural e  em óptimas condições para a nossa saúde. 

Miguel – Estou a aprender  para informar a minha patroa. Compadre,  já agora diga-me qual será a origem  do nome  bacalhau?

Gaspar --  Também há várias teorias. Os alemães dizem que é derivado da palavra kabbaljouwe que se transformou depois em backjau  cuja raiz é  bolch que quer diz em alemão peixe. Isto parece-me um caldeirada muito complicada...   A explicação mais simples é aquela  derivada da palavra  latina  bacalum, que quer dizer pau comprido onde se secava o bacalhau salgado.  Curioso que no sul de Espanha em  certas regiões o bacalhau leva o nome de curadillo. Em Castela chama-se abadexo, mas na Andaluzia tem o nome português de bacalhau. 

Miguel -- Mas nos primeiros mapas da América do Norte,  a Nova Inglaterra e o Canadá  são chamados as ‘Terras dos Bacallaos’. Mas antes de ser chamada Nova Inglaterra aparece nos mapas como Nova Lusitânia.  

Gaspar – O Compadre  está correcto. Isto serve para  atestar que os nossos pescadores vieram para a América do Norte para a Terra Nova muitos anos antes dos outros grupos étnicos.  É  por isso  que os ingleses e os franceses quando chegaram  ao Canadá e à Nova Inglaterra, pensavam que  Bacallao era uma palavra dos  índios americanos. Mas quando constataram que se tratava duma palavra portuguesa mudaram logo nome dos Cabo dos Bacalhaus para Cape Cod.  

Miguel – Malandros. Isso não se devia fazer.  Os ingleses que se dizem  muito aliados dos portugueses sempre nos roubaram em tudo. Basta  revermos a história mundial, não falando no Mapa Cor de Rosa, na  África do Sul.

Gaspar – Vê-se que o Compadre, não é nada anglo-saxónio, a começar pela origem do nome do bacalhau...  

Miguel – Como ladrões de Portugal tenho uma lista  muito grande a começar mesmo antes da independência de Portugal há quase nove séculos. Os celtas, os fenícios, romanos, mouros, ingleses, franceses, holandeses, espanhóis e até o papado,  todos têm levado de Portugal a fartar e a saquear! Pobre Portugal, que tem sido tão martirizado! 

Gaspar –Uma coisa que me deixou triste no XXXI Congresso foi estamos a falar casualmente sobre o significado do ‘fiel amigo’ e houve um Compadre  que  se  intrometeu na conversa e  fez o comentário que  o termo ‘fiel amigo para o bacalhau’, no conceito das  nossas Academias, não tinha cabidela nenhuma. Que o bacalhau não tinha nada a haver com o  sentimento de 'fiel amigo' entre os Compadres e na camaradagem que já existe entre os Compadres. 

Miguel – E você não o chamou à vara,  ao bacalum?

Gaspar – Não, porque entendi que  um indivíduo que faz um  reparo daquela maneira deve ser infeliz. Primeiro demonstra ingratidão para com o valor  alimentício do próprio bacalhau que ele com certeza come nas reuniões  da sua  Academia  e segundo não compreende o duplo sentido do termo ’fiel amigo’, como alimento precioso e símbolo da  confraternização que deve existir entre todos os Compadres e Comadres. 

Miguel – Compadre, vocemecê   preocupa-se muito com estas coisas sentimentais. Vamos entrar neste estabelecimento para comprar umas lembranças para levar para os nossos netitos.  Amanhã quero que me explique quais são as qualidades magníficas, que você tanto apregoa e que diz ser tão características do nosso  do nosso ‘Fiel Amigo’.

Gaspar – OK, OK!

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