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Entre os dois Compadres, Gaspar e Miguel |
Gaspar—O Compadre hoje vem a cantar? Está bem
disposto. O dia está mesmo a seu gosto, não é verdade?
Miguel – Está mesmo um dia talhado para os meus
sentidos: ameno, com sol e pouca humidade.
Gaspar – Então, quais são as suas reacções
depois de ver tanto entusiasmo neste XXXI Congresso Internacional das Academias?
Qual é o seu prognóstico quanto ao futuro das Academias?
Miguel -- Oh homem, eu não sou nenhum profeta.
Mas se observarmos as estatísticas passadas podemos advinhar algumas
previsões... Se não vejamos. A primeira Academia foi fundada em Joanesburgo,
no dia 10 de Junho de 1968. Portanto já fez 34 anos. Num período de 19 anos,
até 1987, formaram-se apenas nove Academias e todas elas na África
Setentrional. Quer dizer que até 1987 as Academias do Bacalhau eram organizações
exclusivamente luso-africanas.
No dia 10 de Junho de 1987,
inaugurou-se a primeira Academia do Bacalhau fora de África. Foi a Academia da
Madeira. Depois nasceu a de Lisboa, em 10 de Setembro de 1988 , a do Porto a 16
de Setembro de 1989 e a do Algarve a 28 de Junho de 1990.
Gaspar -- Quantas Academias é que se fundaram no século XX?
Miguel – No século XX ou seja num período de 32
anos nasceram 26 Academias. Mas repare que no século XXI – num período de menos
de dois anos – já nasceram nove Academias incluindo a da Nova Inglaterra que
tem o número 35. É preciso notar que todas estas novas Academias são fora de
África. Mas ainda mais. A última Academia que se fundou em África foi em 1993.
Parece que África já não vai dar à luz mais Academias. É mãe que já entrou na
menopausa!...
Gaspar – As suas observações são deveras
curiosas.
Miguel -- Mais curiosos ainda são os dados
que dizem respeito aos Congressos Internacionais. Dos 31 Congressos já se
realizaram 26 em África e apenas cinco em território português, no Continente,
Madeira e Açores.
Gaspar –Mas porquê discrepância tão grande? Se
o espírito das Academias é agora internacional porque é que os directores da
Academia Mãe continuam a açambarcar os Congressos para a zona de África?
Miguel – Porque estão a ser salazaristas...
Cristalizaram... Criaram uma organização magnífica – as Academias do Bacalhau
-- e agora não querem largar, estão a fazer como o Salazar que não quis dar
independência às nossas colónias e Portugal acabou por perder tudo e dar na
pouca vergonha que deu.
Gaspar – Mas em abono da verdade os Compadres de
África tem o mérito de terem criado as primeiras Academias...
Miguel – Esse mérito ninguém lho pode tirar. Mas
se realmente desejam que o espírito das Academias seja universal têm que deixar,
têm que largar, têm que permitir e até estimular que as outras Academias se
envolvam mais em Congressos Internacionais e outras actividades. As
Academias do Bacalhau não são mais organizações fraternais exclusivamente
africanas! Esse tempo já passou, meu amigo. Sejamos francos.
Gaspar – Se os nossos Compadres africanos
ouvissem as nossas palavras iriam ficar muito aborrecidos.
Miguel – Eu não falo para aborrecer ninguém.
Estou a fazer uma crítica construtiva. Se procedo desta maneira é porque vejo
muito mérito nos objectivos das Academias do Bacalhau. O Compadre sabe muito bem
que eu tenho muito mais coisas em que gastar o meu precioso tempo. Nunca na
minha vida fui hipócrita. Gosto de enfrentar os problemas para que sejam
corrigidos a tempo e horas.
Gaspar – Agora que a emigração portuguesa
terminou para todos os lados, o que é que vai acontecer às Academias de África e
doutros países em que a língua é diferente da portuguesa e os velhos vão
morrendo e os novos não querem saber mais das coisas portuguesas?
Miguel – O Compadre já quer ir muito longe. Eu
não quero pensar nisso. Dentro de poucos anos os Compadres da Academia-Mãe, que
têm sido uns carolas, que têm gasto muito dinheiro do seu bolso, vão morrer e
quem é que os vai substituir nas mesmas condições? È por isso que eu lhes
recomendo para serem inteligentes e irem passando gradualmente as
responsabilidades às outras Academias. Mas também quero declarar aqui que não
quero assumir nenhuma dessas responsabilidades. Estou no pôr do sol da minha
vida e portanto deixo para os mais novos que têm ainda sangue na guelra! É
por isso que estou muito tranquilo a falar desta maneira embora possa parecer
acérbico para os Compadres de África.
Gaspar – As verdades ninguém as quer ouvir, mas
o tempo cura tudo!
Miguel – Uma coisa que faltou ao Congresso XXXI
foi um tema cultural ou patriótico. Todos os Congressos deviam ter um tema. Eu
não sei se os outros Congressos Internacionais tiveram um tema, porque este foi
o primeiro Congresso a que assisti.
Gaspar –No nosso próximo colóquio poderemos
trocar impressões sobre essa ideia dos temas.
Miguel – Está bem.