Não queremos o carrasco!
Por Manuel Luciano da Silva

Primeiro Presidente (4 anos) da Academia do Bacalhau da Nova Inglaterra.  Agora Secretário

Toda a Academia que põe muita ênfase nos comes e bebes está condenada a morrer!...
São preciso motivos espirituais, culturais e patrióticos para manter o entusiasmo na Academia!

A nossa Academia foi fundada e incorporada com Alvará em Providence, capital do Estado de Rhode Island, nos Estados Unidos da América, no dia 3 de Julho de 2000. Resolvemos criar nesta região uma Academia do Bacalhau porque é aqui que existe o Cabo dos Bacalhaus!...

Como não tínhamos nenhumas informações sobre o funcionamento protocolar das outras Academias, os seis fundadores da nossa Academia, --  3 homens e 3 mulheres -- resolvemos criar o nosso protocolo baseado na nossa longa experiência em  sermos membros activos de várias  organizações sociais,  quer americanas quer luso-americanas, tais como Clube dos Rotários e outras organizações semelhantes.

Assim estabelecemos o seguinte protocolo, com a finalidade de criar um ambiente agradável e positivo para os nossos membros:

Realizamos as nossas ceias na terceira segunda-feira de cada mês, às sete da noite, num restaurante luso-americano, por ser o dia da semana mais calmo e para não interferirmos com casamentos e festas familiares que se realizam nos fins de semana.  E já vamos na ceia No. 47.

Protocolo

 (1)   Primeiro, o presidente pede silêncio com o  badalo. Imediatamente  o presidente lê em português a  nossa Bênção  antes de  principiar a refeição. O vice-presidente lê a  tradução em inglês, porque estamos na América e temos membros que só entendem inglês.  E todos guardam silêncio quando as Bênção  são lidas. Há solenidade nestes poucos segundos.

Aqui estão os conteúdos das duas mensagens:

Bênção -- Em Português

Caros Compadres e  Comadres:

Antes de iniciarmos a nossa Ceia peço-vos para nos concentrarmos  numa pequena oração.

Em Português:

Ao Deus da preferência de cada um de nós, agradecemos o facto de estarmos aqui hoje reunidos para confraternizarmos na  No. ______ Ceia da Academia do Bacalhau da Nova Inglaterra.

Pedimos ao nosso Senhor para que com esta Ceia de Bacalhau  -- ou do Fiel Amigo – possamos desenvolver  cada vez mais entre nós laços de amizade, cooperação e confraternização.

Pedimos Saúde, Paz e Alegria para a humanidade e agradecemos  muito a Deus  alimento que vamos tomar.

Assim seja. Amen.

Blessing --In English.  Read by the vice-president 

 Before we start our supper we should have a short  invocation.

Ladies and Gentlemen:

To the God of the preference of each one of us, we are grateful for the fact that we are gathered here today to have our  No. _________ Supper of the Academy of the Codfish of New England .

We ask our Lord that with this supper of Codfish, or the so called  -- “Faithful Friend”--, we can develop among ourselves ties of friendship, cooperation and co-fraternization.

We ask also, Health, Peace and Happiness for humanity, as we are very grateful to God for the food that we are about to receive.

Amen.  Good Appetite. 

 (2)  Segundo. O restaurante serve um copo de  vinho  tinto e dois bolinhos de bacalhau a cada Compadre e Comadre e o Presidente lidera o primeiro Gavião de Penacho.

(3) Terceiro. É  servido  a sopa à portuguesa, por exemplo  caldo verde.

 (4)  Quarto. Depois é  servido o prato principal: como  Bacalhau a Gomes Sá, ou Bacalhau a Zé do Pipo, etc.,  acompanhado de salada mista.

(5) Quinto. Segue-se  sobremesa portuguesa. Depois da sobremesa,  o vice-presidente lidera mais um Gavião de Penacho.

 (6) Informações. Nesta altura o presidente  dá informações no que respeita ao bom funcionamento da nossa Academia, procurando  ser sempre  objectivo e pouco moroso.

(7)  Rifa. ( Em substituição do carrasco)  Vários sócios tem trazido  ofertas, em média num total de dez a vinte, que com a ajuda de vários Compadres e  Comadres,  vendemos uma braçada de  bilhetes (comprimento do membro superior),  num total  de dez bilhetes,  ao custo de  cinco dólares cada braçada. Psicologicamente, esta forma  da rifa dá muito melhor resultado monetário do que se fizéssemos  um leilão, ou se tivéssemos um carrasco  que duma maneira geral antagoniza a maioria das  pessoas.  O período da selecção  dos números premiados tem servido de grande  expectativa e entretenimento e a rifa  tem produzido resultados magníficos.

 (8) O Fiel Amigo. Como atracão cultural criamos  um segmento  no nosso protocolo que consta na apresentação daquilo que chamamos o nosso Fiel Amigo. Um dos nossos membros,  previamente convidado pelo presidente, faz a apresentação biográfica dum português, ou americano, homem ou mulher, vivo ou morto que tenha dignificado o nosso grupo étnico. O apresentador não pode exceder os cinco minutos. A sua apresentação pode  ser em português ou inglês. Terá que fornecer a todos presentes  uma  cópia  do seu discurso para as pessoas levarem para suas casas e  arquivarem ou mostrarem  aos filhos e aos netos.  Todos nós temos aprendido coisas muito interessantes e originais com o Fiel Amigo. Já foram apresentados como Fiel amigo: Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Pedro Álvares Cabral, Infante D. Henrique, Camões, Fernando Pessoa, Abade Correia da Serra, primeiro embaixador de Portugal na América,  Benjamim Cardoso, Judeu Português que chegou  a ser Juiz do Supremo Tribunal Americano, Emma Lazarus, judia portuguesa que escreveu o soneto  que está na base da Estátua da Liberdade em Nova Iorque, Joseph Raposo, fundador do programa de televisão Sesame Street, Santo António de Lisboa, etc., etc.

 (9) Poesia original. Em média nas nossas ceias temos tido quatro poetas que nos tem deliciado com as suas  belas poesias  originais. A poesia tem que ter rima. Os temas podem ser sobre  Portugal, América,  Bacalhau, ou então  as estacões do ano ou feriados ou festas religiosas.   Tem sido apresentadas  obras  maravilhosas que depois têm sido publicadas no nosso Boletim mensal.  E já originaram a publicação de  dois livros de poesia!

 (10) Anedotas. A parte final tem constado de anedotas. As anedotas tanto podem ser em português, como em inglês. Tanto os Compadres como as Comadres têm participado activamente. Até à  data as anedotas têm sido comedidas. Com alguma pimenta, mas  só o suficiente...  mas este espaço produz sempre muitas gargalhas. E boa disposição.

(11) Não queremos  nenhuma música como fundo musical, porque são  os Compadres e as Comadres a falarem uns com os outros  que fazem  a música humana.

(12)  Não consentimos discursos políticos nem religiosos. Queremos, sim, que as nossas ceias sejam reuniões familiares à moda portuguesa.  E  por isso temos sido muito bem sucedidos com este protocolo.

(13) Continuamos, como disse,  a prestar muita atenção às pessoas.  Todos tem igual valor. Não há lugares marcados e assim cada qual escolhe o seu grupo onde se sente mais á vontade durante a refeição. Temos  tido sempre mais de uma centena de convivas nas nossas ceias. Há Compadres e Comadres que nunca falham!

(14) Não queremos nenhum carrasco.  A palavra carrasco é ofensiva e negativa.  Carrasco quer dizer: “Executor da pena de morte;  Aquele que aflige alguém;  Homem cruel, tirano, verdugo”.   O carrasco dispõe mal as pessoas. Para angariarmos fundos preferimos a Rifa na qual todas as pessoas se envolvem, comprando uma braçadeira de bilhetes por  cinco dólares e depois entretém-se na expectativa,  quando são anunciados os prémios e  assim acabamos por angariar  mais fundos para a Academia.

(15) Preço por cada pessoa para a ceia: $20:00 (Vinte dólares).

Cada restaurante cobra à Academia 16 dólares por cada  refeição  como foi  acima descrita. Este preço já inclui a gorjeta e taxas.  Nós temos  tido sempre mais de uma centena de convivas em cada ceia. Deste modo quando nos sentamos para comer a Academia já fez limpos mais de 400 dólares.  E com a Rifa fazemos sempre mais de 300 dólares, limpos.  Que dizer que em cada ceia fazemos o lucro de mais  de 700 dólares, num ambiente muito agradável com poesia e humor. 

(16) Membros: Presentemente – Novembro 2004  – temos  246 membros.  Curioso que 60 por cento dos nossos membros são mulheres!

(17) Não cobramos nenhumas cotas aos membros. Vindo eles às nossas ceias pagando 20 dólares  pela refeição, quem vier às doze ceias num ano, acaba por pagar 48 dólares anualmente sem sentir… Todos os  nossos membros têm que se registar com o nome,  direcção e telefone.

(18)  Os nossos lucros  têm sido aplicados em   actos de caridade quer em Portugal, quer aqui nos Estados Unidos e também na aquisição de livros em inglês sobre a história e cultura portuguesa para  oferecer às  bibliotecas públicas, liceais e universitárias da Nova Inglaterra para que os nossos filhos, netos e  cidadãos americanos possam  receber informação na língua nata deles--  o inglês --  sobre as raízes da nossa Pátria de Origem.  E estas dádivas têm sido muito bem recebidas.

(19) Não seguimos certas normas estabelecidas pela Academia Mãe porque entendemos que são  arcaicas e não têm senso  comum como a existência  do carrasco e também não darem às mulheres os mesmos direitos e regalias que dão aos homens. Que dizer que as mulheres são muito boas para cozinhar o bacalhau para os maridos e para irem para a cama,  mas os machos, chauvinistas, não lhes dão os mesmos direitos  no seio das Academia do Bacalhau. São coisas que estão tortas com as quais não concordamos.  Legalmente estamos a funcionar muito bem aqui neste país seguindo as  leis americanas. Não vamos seguir certas normas porque dizem que é “assim de tradição”… como acontece nas outras Academias.  

(20) Todas as nossas ceias devem terminar por  volta das 9:30 da noite  porque ao outro dia é  dia de trabalho. Mas também começamos a nossa ceias à hora marcada:  7 horas da noite.

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